São Paulo, Brasil
Quando a gente precisa desacelerar

Quando a gente precisa desacelerar

Escrevi o texto abaixo no final do ano passado. Faltava apenas 1 semana para o Natal, época em que normalmente as pessoas ficam mais reflexivas e com um sentimento de “o que posso fazer para melhorar a minha vida nesse ano que está por vir?”.

Fazia apenas alguns meses que eu tinha começado a meditar para valer e algumas pessoas já faziam comentários do tipo: Nossa, você está mais zen, o que aconteceu?

Apesar disso, olhando para trás, eu vejo o quanto algumas coisas nos meus hábitos ainda me incomodavam: como o imediatismo e a pressa, por exemplo. E eu estava tentando mudar isso aos poucos – processo que se estendeu até o começo de 2020.

Longe de romantizar o momento que estamos vivendo, até porque eu sei o quanto as pessoas foram afetadas negativamente (diversas próximas a mim), quando me vi finalmente trabalhando de casa, essa sensação de correria não melhorou, pelo contrário: eu sentia que tinha que ser mais produtiva, que as horas que eu “economizava” por não passar mais no transporte público  deviam ser preenchidas com cursos e outras coisas úteis.

Quando eu deitava a cabeça no travesseiro a noite era como se acendesse uma lâmpada e diversos pensamentos acelerados percorriam a minha mente sem freio e me impediam de dormir. Isso persistiu por pelo menos 2 meses ininterruptos.

Reli esse texto, que havia entrado para a pilha dos meus não publicados, e senti que ele ainda fazia sentido. Em tempos que se questionam antigos hábitos e se fala em “novo normal”, será que a gente realmente desacelerou ou foi obrigado a correr de outras maneiras?

Precisamos ir mais devagar?

Se você vive em uma grande cidade como São Paulo, sabe que o ritmo é intenso, dinâmico, caótico e nos obriga muitas vezes a desafiar os ponteiros do relógio para cobrir longas distâncias em tempos recordes. Assim, parece que está todo mundo com pressa, atrasado e, com isso, os semblantes se fecham, as pessoas não se olham e não notam os pequenos milagres de vida ao redor.

Já ouvi de várias pessoas que ando muito rápido. Posso até não estar atrasada, mas se você me encontrar na rua, provavelmente vai ter que acelerar (e muito) o passo para conseguir me alcançar. Não sei dizer bem quando isso começou, mas lembro de estar com uns 5 anos e andar ao lado do meu pai e tentar acompanhar os passos dele. Acho que ele nem andava rápido, mas a lembrança que tenho é de correr a cada passo para me igualar ao ritmo dele.

E tenho seguido correndo na vida desde então.  A gente anda com pressa e com impaciência. Eu nasci em 1988, logo, ainda tenho lembrança bem clara da época que contar moedinhas para pagar o ônibus era a regra e não a exceção. Todo mundo esperava e seguia sua vida. Entretanto isso mudou. Principalmente com o bilhete

único. E agora dá até para pagar no cartão! Vai alguém se aventurar a contar moedas na beira da catraca para ver se não ouvirá meia dúzia de suspiros impacientes.

Parece que quanto mais as tecnologias nos fazem ganhar tempo, mais impacientes ficamos. É inadmissível que uma página de internet demore mais que 4 segundos para carregar, que os sistemas travem, que o nosso pedido no restaurante demore mais do que 10 minutos para ficar pronto. A gente não tem tempo para perder, não é mesmo?

Qual é o real preço disso tudo? A cada ano que passa aumenta aquela sensação terrível de estar sempre correndo contra o tempo. Quanto mais nos apressamos, menos tempo parece que a gente tem. Segundos se transformam em minutos, que viram horas, dias, semanas, meses e assim acabou mais um ano. E o que a gente viveu nessa correria toda?

É fato que a nossa percepção de tempo muda conforme envelhecemos, contudo, desfrutar da jornada deveria estar no topo das nossas prioridades. E aproveitar não significa que temos que preencher cada milésimo de segundo com alguma atividade. Pelo bem da nossa saúde física e mental, a gente precisa, sim, desacelerar de vez em quando.

Fica aqui o desafio para mim e para você também: estar presente em cada situação e fazer de cada segundo uma experiência que vale a pena ser vivida. Então, se a gente se encontrar na correria diária, talvez possamos diminuir o passo e nos cumprimentar olhando nos olhos com a certeza de que ir devagar algumas vezes não é perder tempo, mas sim uma oportunidade de ressignificar a rotina que nos consome e nos deixa no piloto automático.

Conta para mim nos comentários o que você faz para desacelerar de vez em quando?