São Paulo, Brasil
Sobre ser nós mesmos

Sobre ser nós mesmos

Lembro exatamente quando parei de expor meus pensamentos e opiniões nas redes. Foi em algum momento lá para meados de 2012. Inclusive quando vejo aquelas terríveis recordações anteriores a 2012 sinto uma profunda vergonha uma pontinha de inveja daquela garota com vinte e poucos anos que não tinha medo de falar o que pensa. 

Terminei a faculdade de Jornalismo no final de 2011 e de lá para cá o que menos fiz foi testar os meus próprios projetos. No início de 2012 juntei três amigas com a ideia de fazermos um canal no Youtube. Já tinha desistido de ser uma VJ da MTV mesmo (risos) e como ainda não havia conseguido entrar na área dos meios tradicionais de comunicação, parecia um ótimo caminho começar pelo Youtube.  

Mas sabe quando esse projeto saiu do papel? Nunca. Uma das amigas ficou grávida, a segunda parou de falar comigo, a terceira e eu achamos que era melhor pausar o projeto. Então no final daquele ano, eu também estava casada, grávida e desempregada. Para não ficar parada e ganhar algum dinheiro eu fui fazer alguns trabalhos de revisão de TCC e os meus projetos e sonhos foram ficando esquecidos na gaveta. Foi assim que durante anos eu sofri com um bloqueio criativo terrível.  

Escrever para mim sempre havia sido algo vital. Escrevia quando estava triste, feliz e principalmente apaixonada (Libriana, né amores). Qualquer um que me conheceu antes de 2012 e se tornou meu amigo, em algum momento foi presenteado com uma poesia despretensiosa (se você ganhou um dos meus acrósticos com o seu nome, sinta-se muito importante).  

Porém eu simplesmente parei de escrever e algo que era tão importante para mim se tornara uma tortura à mera tentativa. Deixei meu blog às moscas, não escrevia mais meus diários, poemas e fui enterrando uma parte de mim em que sempre me encontrei. 

Eu, é claro, fiz o que toda pessoa faz quando está distante do seu verdadeiro ser: parti em busca de culpados. A culpa só podia estar na rotina enlouquecedora que me consumia. Como escrever quando se trabalha 44h por semana, tem casa, marido e filho para dar conta? Não conseguia admitir para mim mesma, quiçá para os outros, que era o meu medo de me expor que estava me paralisando. 

Finalmente quando o vazio já estava tão grande e insuportável, consegui enxergar que eu tinha um problema. Então fui fazer terapia, meditação e aos poucos voltei aos eixos novamente. Sim, finalmente havia descoberto o óbvio: estava desconectada de mim. Vale ressaltar que muitas pessoas quando chegam nesse ponto de total desconexão recorrem a diversos subterfúgios para colorir a vida, mesmo que de maneira artificial. 

No meu caso, tudo o que eu precisava estava ao meu alcance: papel e caneta. Nossa, Priscila, que papo good vibes, gratitude furado. Eu sei que parece mesmo, mas muitas vezes a gente fica esperando o momento perfeito para fazer as coisas e acaba nunca fazendo.  

No final do ano passado, eu estava com os mesmos limitadores de sempre, porém me obriguei a sentar na frente do notebook todos os dias e escrever pelo menos 3mil caracteres de uma história que comecei há anos. E as coisas foram fluindo de tal modo que quando me dei conta, em menos de 2 meses havia escrito mais de 100 páginas. Em vários dias eu escrevi bem mais do que a meta inicial, conseguindo finalmente terminar um livro (a última vez que consegui feito parecido foi aos 14 anos, quando a vida se resumia a entregar trabalhos da escola em folhas de almaço). 

O que eu quero dizer com este texto (antes que ele fique grande demais) é que muitas vezes as situações que motivam a nossa paralisação pessoal não vão embora de um dia para o outro, porém podemos mudar a nossa perspectiva sobre elas e agir. Não tenha medo de pedir ajuda, mas também não fique esperando as ações alheias para ser o seu ponto de mudança. Invariavelmente quem está ao nosso lado (família, amigos e etc) será nossa mola propulsora, mas nem sempre o incentivo virá delas (e tudo bem).  

E principalmente, não tenha medo de começar aquele projeto que você sempre quis colocar em prática por medo do que as pessoas dirão. Você vai descobrir que muitas vezes quem te olha com estranhamento, provavelmente queria ter a coragem que você tem de perseguir os seus sonhos.