São Paulo, Brasil

Dia Mundial da Amamentação

Uma das fotos mais icônicas que tenho do meu período de amamentação foi tirada pelo meu marido e mostra eu praticamente desmaiada com a cria ao lado. A pequena dormindo satisfeita com a barriguinha cheia e com a cabeça apoiada sobre o meu braço direito torto (posição esta que me acompanhou meses a fio a ponto de eu quase não ligar para o incômodo da dormência que tomava o meu braço) e as minhas olheiras gritantemente profundas. 

Não há necessariamente beleza nessa foto (inclusive não tenho nem coragem de postar), mas me faz refletir bastante o quanto amamentar em nossa atual sociedade se torna um ato heroico. Nas propagandas que incentivam a amamentação, são mostradas mulheres plenas e sorridentes enquanto a realidade de uma mãe que começa a amamentar é muito diferente. 

A cria não tinha nem uma semana de nascida, quando uma parente do marido veio nos visitar e olhou para mim com uma cara estranha, não se conteve e disse: “você sempre amamenta assim?” Olhei para ela assustada pensando o que havia de errado. “Assim como?”, questionei temerosa. “Assim séria”, ela devolveu. 

Não consegui responder. O que aquela parente não sabia é que eu havia varado a noite em grupos sobre amamentação, pois apesar do leite abundante eu ainda não havia acertado a pega e consequentemente havia surgido uma fissura no bico do meu peito. Só quem viveu sabe o quanto essa fissura é dolorida. Eu literalmente via estrelas de dor quando a bebê sequer chegava perto. 

Mesmo assim eu segui bravamente. A cara séria para esconder a dor, porém o coração transbordando de amor. Isso e o apoio de diversas mulheres que eu sequer conheço pessoalmente do GVA (Grupo Virtual de Amamentação no Facebook) me mantiveram firme. A bebê crescia forte e feliz, porque tinha uma verdadeira leoa sempre por perto. 

O sempre durou 2m18 dias, momento exato que voltei a trabalhar fora, 44 horas por semana. Eu estava afastada do mercado há 10 meses e quando recebi a oportunidade de trabalhar na empresa dos meus sonhos, não pude recusar. Naquela época marido ganhava um pouco mais que um salário mínimo e estávamos morando de favor. Se alguém me perguntar se eu me arrependo de ter optado por isso, a resposta está na ponta da língua: não. Porém, confesso que me doeu e às vezes passados tantos anos, ainda vem uma pontinha de culpa. 

Ah a tal culpa materna. Nasce um bebê, nasce uma mãe e nasce a culpa também. Por mais que a gente saiba que está fazendo o melhor para a nossa família, os olhos condenadores nos acompanham e nos enchem de culpa. Você sempre acha que não está sendo boa o suficiente. “Que tipo de mãe é essa que deixa um bebê tão novinho em casa? Você não fica com dó?”, essas foram apenas algumas das muitas perguntas que recebi nos primeiros meses. 

Contrariando as expectativas consegui manter a amamentação da minha filha até os 2 anos e 9 meses. Como? Levei durante cinco meses uma mochila pesada com a bomba para tirar leite e usava dois períodos de meia hora na parte da manhã e da tarde para tirar os preciosos mls de leite que a minha irmã oferecia para a minha filha em um copo.  

Devo dizer aqui também que tive um apoio muito bacana da minha supervisora da época que conseguiu a autorização para que eu usasse uma sala fazia de treinamento e das “meninas do RH” que cederam espaço na pequena geladeira da sala delas para que eu pudesse guardar as garrafinhas de leite até chegar em casa. O legal disso, foi que meses depois a empresa implantou o espaço mamãe com poltronas confortáveis e geladeira específica para que as mulheres pudessem tirar e guardar o leite e embora eu não tenha usufruído do espaço, fico feliz por ter sido uma das primeiras a despertar na empresa essa necessidade de adaptação. 

Nesse dia Mundial da Amamentação, vale refletir sobre todas essas coisas. Como uma amiga minha costuma dizer “nós mães não somos heroínas, estamos sobrecarregadas” e a verdade é que somos obrigadas a fazer escolhas difíceis constantemente sobre nossos relacionamentos, carreiras, criação dos nossos filhos. E não à toa, que muitas mães desistem ou não conseguem seguir com a amamentação por não terem leite, sintoma este que muitas vezes se manifesta pela falta de suporte adequado.  

Como a maravilhosa Laura Gutman fala no livro “Mulheres Visíveis, Mães Invisíveis”, “a amamentação deveria fluir como um rio”, porém o que mais nós mulheres temos feito é nadar contra a corrente, muitas vezes por não poder contar com uma base sólida para atravessar estes momentos.